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Textos

A Colombina

Finalista Concurso Contos do Rio, Caderno Prosa, O Globo

Você levaria um susto se visse meu nome aqui grafado: sou um escritor respeitado no país, cheguei a ganhar vários prêmios, dou autógrafos em cafeterias.
Não poderia, portanto, estar aqui.
A não ser que sob disfarce.
Veja você, leitor, que existem motivos tão justificáveis para minha participação neste concurso, que a mesma jamais poderia ser considerada infração. O regulamento diz que não podem entrar escritores publicados ou famosos, como é meu caso, porém certamente abriria exceção a situações de vida ou morte.
Como era meu caso.

Briga de casal

Prêmio SESC de Contos Machado de Assis

Finalista Prêmio SESC de Contos Machado de Assis

Ontem de manhã Mariana saiu de casa para nunca mais voltar, pelo menos foi assim que ela me deu a notícia, “para nunca mais voltar, seu matuto de uma figa”. Eu dei a ela um presente que me custou os olhos da cara, uma joia de ouro dezoito quilates que levei quinze anos para poder comprar, foi numa joalheria de rico, lá embaixo na cidade, andei por aquelas ruas que pareciam formigueiros de tanta gente, me sentei de frente para o moço que me olhou torto e disse, “isso aqui não é bijuteria, queira o senhor estar informado”, isso ele disse decerto porque não costuma ver gente do meu tipo em lojas do tipo dele, mas fui de terno, sapato engraxado e a gravata azul que Mariana tinha me dado ano passado, enfrentei o vendedor de cara amarrada que se desamarrou depois que tasquei aquele monte de nota de cinquenta na mão dele, enfrentei uma madame cheia de joias que nem entendi por que ia querer comprar mais joias olhando para mim com desprezo, enfrentei o calor, que ontem estava um forno.
Mas nada se compara a esse calor que estou sentindo agora. Onde está Mariana? Dei o presente na mão dela, ela abriu a caixinha e na hora até gostou, disse, “Que boniteza de broche”, “Não é broche”, expliquei para ela, “é pingente, um pingentezinho para você botar no cordão que a sua madrinha deu para você nos seus quinze anos”, “Tem tempo isso, hein?”, ela falou franzindo a testa mas eu vi que queria era rir, não me deu beijo de agradecimento nem nada porque faz tempo que não temos essas coisas de afagamentos e paparicos, mas vi que gostou porque na hora enfiou o coraçãozinho no cordão, experimentou, depois tirou, botou o cordão em cima do sofá, guardou o pingente na caixinha de veludo azul-escuro no bolso do avental e foi para a pia lavar louça. Foi aí que começou a briga. Ela estava de costas para mim e acho que aproveitou a enchança de ter ganhado presente para pedir outro, disse assim como quem não quer nada, “E a casa nova para nós?”. Mariana queria se mudar mas ela sabe que se for possível só vai ser depois que eu me aposentar da fábrica e para isso faltam no mínimo uns dez anos, ela sabe e não falou para me magoar, mas fiquei magoado assim mesmo e rebati, “Que casa nova, mulher? Está achando que eu cago dinheiro?”. Não sei se foi o jeito de eu falar mas ela começou a chorar, ficou braba, acho até que é coisa de mulher porque não tinha motivo, devia ser aquilo de hormônio porque Mariana está prenhe do nosso primeiro filho, está já de sete meses, dizem que faz parte isso de chorar por qualquer bestagem, mas ela não ficou só chorando, largou a torneira aberta, o pires de florzinha amarela que a gente comprou na feirinha cheio de espuma de sabão e pôs as duas mãos molhadas assim mesmo no rosto, eu fui dar um abraço nela mas ela me espantou como se eu fosse mosca e falou que eu não entendia nada de mulher, que ela era obrigada a morar num barraco remendado igual vestido de festa caipira no alto daquele morro onde Judas perdeu as botas e que qualquer dia o morro ia desabar, o barraco ia sair deslizando pela lama feito barquinho de papel e a gente, que não tinha muita coisa, ia perder tudo para a chuva.
Isso tudo ela falou ontem e parecia até que tinha bola de cristal, porque foi ela dizer isso e daqui a pouco acontecer igualzinho. A prima dela é cigana, de ler mão e tudo, e eu acho que a Mariana, se não fosse doméstica, ia trabalhar com essas coisas de adiantar o futuro também porque ela tem uma boca danada, é falar e acontecer. E eu aqui fico me perguntando se quando ela saiu de casa levou embora com ela a caixinha de veludo azul-escuro com o presente, fico me perguntando porque queria saber se ela vai ficar com alguma recordação minha, além da criança, isso se a criança nascer com saúde, porque os outros três não vingaram, viraram anjinhos ainda dentro da barriga, saiu aquela sangueira toda da Mariana e ela chorava, chorava de dar dó.
Está um calor dos infernos aqui, eu não gosto de falar essa palavra porque minha mãe, Deus a tenha, ensinou que a gente deve evitar palavra que atrai. Mas eu não consigo pensar noutra palavra para esse calor porque é um calor que eu nunca senti na vida, além do mais estou com tanta sede que parece que vou morrer nem é de calor nem por causa dessa terra toda em cima de mim, vou morrer é de sede mesmo, de falta d’água apesar de todo o aguaceiro de ontem, porque a Mariana falou tudo certo, boca danada de cigana a mulher tem, disse que o barraco ia cair e veio despencando tudo quando o morro desceu rolando feito aqueles negócios de neve, dei graças a Deus de Mariana ter saído de casa mas até agora não sei se deu tempo para ela fugir, se ficou lá embaixo me esperando e está agora chorando porque não me achou, ou porque viu o morro desabar comigo e tudo e mesmo cheio de polícia aqui em cima eles não conseguem me encontrar, isso porque é muita terra em cima de mim e da minha boca, eu não ia conseguir gritar mesmo que quisesse porque também estou com muita sede, acho que não estou raciocinando direito, está tão escuro, tão escuro aqui embaixo, fico pensando se Mariana já foi é para longe, se deu linha do morro, se depois que eu morrer vai arrumar outro, queria tanto que ela tivesse voltado, mas espera, está clareando, olha, me encontraram, os bombeiros, os polícias, Deus seja louvado, me acharam, estão botando a corda em volta de mim, estou enxergando tudo, o barro vermelho misturado com marrom, um pedaço de liquidificador aqui do lado da minha perna, espera, foi ele que partiu a minha carne, isso é sangue, não tem problema, se for o caso fico sem uma perna mas fico com a outra e ando, se não andar também não tem problema, quero é ver de novo Mariana, isso aqui é a mão do bombeiro me levantando, grato, meu senhor, eternamente grato, se ao menos eu pudesse falar, mas o que é esse cubinho aqui cheio de terra? Espera, seu bombeiro, é a caixinha de veludo azul-escuro, deve ter escorregado do avental dela, o pingente, o presente, então Mariana está aqui também, não foi embora, não foi para longe, o importante é estar viva, não consigo falar, aponto para o lado, meu senhor, pelo amor de Deus, cavouque mais um pouco porque minha mulher também está aqui embaixo soterrada, minha mulher mais o filho que está vindo aí, se eu consegui eles também vão conseguir, isso, meu senhor, ela estava o tempo todo aqui do meu lado e eu não sabia! Eles cavoucam com cuidado mas com pressa, são profissionais do mais alto nível, cavoucam e gritam, e falam no rádio, e jogam a corda, e tiram a terra de cima, ela está viva, está viva, seu polícia, Deus lhe pague, ela olhou para mim e também não consegue dizer nada, estamos cobertos de lama, pobreza e lixo, mas olha a Mariana, olha o jeito dela de ser, está apontando para o bombeiro salvar também a caixinha de veludo-azul, ele pegou na mão o coração todo sujo de barro, Mariana o tempo todo do meu lado e eu não sabia, seu moço salve o coração que é de barro só por fora, por dentro é ouro.
Natália Nami

O pudim de Albertina (7Letras)

O pudim de Albertina (7Letras)
Contos
2008

“Apertou o botão do controle remoto e desligou o programa de auditório; a madrugada já ia alta e ele não tinha mais tempo: precisava morrer. Olhou em volta e sentiu preguiça. Cortar os pulsos daria trabalho, arma não possuía, esquecera-se de providenciar algum veneno e, infelizmente, a avó não estava mais lá para fazer o guisado de bucho de boi que – conforme boato familiar de mau gosto – tinha sido o responsável pelo involuntário envenenamento (seguido de morte) do avô.
Restava então esperar. Deixou que o corpo obeso passasse aquela última noite no sofá da sala; não escovaria os dentes e nem tomaria banho, que ninguém iria se preocupar com isso do lado de lá. Depois refletiu: poderia exalar maus cheiros através do pijama mesmo depois de morto. Imaginou Albertina tapando o nariz no enterro, ficou com escrúpulos. Era preciso aquele último sacrifício: ergueu-se a custo – pois, além de gordo, estava embriagado – e arrastou-se até o banheiro em ziguezague pelo corredor salpicado de restos de comida.”

(“O pudim de Albertina”, p.19)

O contorno do sol (Rocco)

O contorno do sol (Rocco)
Romance
2009

“A noite. Teria de atravessá-la, como atravessara sozinha a ponte entre a redoma maternal e o nascer. Poderia ser outro parto, este: ser expelida pela noite e perceber-me viva, sobretudo nova, depois de toda a dor. Ou poderia simplesmente cerrar os portais, parar no meio da ponte, ceder à falta de ar e fechar os olhos, para deixá-los ser abertos depois, por anjo, fogo ou verme.”

(p.48)

Escritores escritos (Flâneur)

Escritores escritos (Flâneur)

Antologia - vários autores
Organização: Victoria Saramago
Prefácio: Italo Moriconi
2010

“Mas ontem. Faltou energia em sua casa bem na hora em que ia me falar sobre o tal poema. Disse que as bobagenzinhas que eu escrevera lhe lembraram o texto de alguém, disse o nome, ou mais de um, e eu ia fingir que já tinha ouvido falar mas ela percebeu. “Não disfarça, Elaine, sei que você nunca ouviu falar na Dickinson”. Repetiu tantas vezes que guardei, Dickinson; só não lembro o primeiro nome, mas era mulher. “Meu irmão vem pegar você aqui?”, perguntei, querendo ir com eles ao cinema, de carro, mas querendo mais ainda mudar de assunto. Eu estava ficando um pouquinho nervosa, ficava sempre nervosa quando Sílvia usava o vestido de alças, o amarelo; não é por nada, é porque gosto do vestido e sei que em mim não ficaria bem. Nada fica muito bem em mim. Mas não era bem o vestido.”

(“Tarde de pedra”, p.135)

A menina de véu (Rocco)

Romance
2014

“Vítor, por favor, se apaixone por mim, sugeri em voz baixa, chorando e rindo ao mesmo tempo, tanto tumulto no oceano que se desfiava neste hemisfério. E as ondas do lado de lá, tão calmas. Lembro também que me serviu de mais uísque e perguntou de repente: Por que você continua fugindo? Fiquei olhando o copo flamante e decidi pensar que não estava fugindo de nada porque nada havia acontecido! Se me roubavam o rosto, então que me roubassem os fatos, como se não tivessem acontecido!
E talvez não tivessem mesmo, fui pensando, miseravelmente feliz, fui enlaçando-o, mudando os assuntos, num êxtase apanhei seu rosto quase o arranhando com as unhas, beijei-o e senti o gosto do uísque, do fumo, respirei com dificuldade, puxei a gola da sua camisa, mas o tecido era frouxo, as mãos escaparam, e quando ele despediu-se fui até o espelho do banheiro, para quebrá-lo.”

(p.35-36)